A Farsa da Morte na Cruz
No decorrer da vida, por meio de nossos pais, da escola e dos amigos — algumas vezes de forma voluntária, outras, de maneira involuntária — ouvimos e aprendemos histórias. Muitas delas são reais; outras, fantasiosas. Aos poucos, vamos sendo apresentados a heróis e vilões: do Saci Pererê à Chapeuzinho Vermelho, de Homero a Platão. Lendo livros ou assistindo a filmes e documentários, tomamos conhecimento de fatos históricos, impérios, grandes guerras e descobertas científicas.
Algumas dessas histórias nos convencem facilmente; de outras, duvidamos. Nem sempre temos uma resposta racional para explicar por que acreditamos em Aristóteles e duvidamos do Rei Davi. Ambos os personagens tiveram sua existência comprovada — embora de maneiras muito diferentes — pela arqueologia.
Um dos grandes personagens da história, seja você religioso ou não, cristão ou não, é Jesus de Nazaré. Ele é o único personagem histórico a cumprir as 48 profecias sobre o Messias descritas na Tanakh (Bíblia judaica) e no Antigo Testamento da Bíblia cristã. Algumas dessas profecias falam justamente dos sofrimentos que o Messias teria que passar, da sua morte na cruz e da sua ressurreição.
Muitos cristãos optam por simplesmente crer que tudo isso de fato aconteceu. Outros, mais cuidadosos e interessados, buscam compreender, à luz da medicina, da arqueologia e da história, o que de fato aconteceu com Jesus naquelas últimas horas antes de sua morte. Jesus foi, de fato, açoitado? Quais foram as consequências desse açoitamento? Quem eram os homens que mataram Jesus? Por que Jesus precisou de ajuda para carregar a cruz? E a água com sangue que saiu de seu corpo? Há alguma contradição ou conflito nesses relatos? São várias as perguntas que surgem a partir dos escritos dos evangelhos e que procuraremos responder nas próximas linhas.
Apesar de não haver um número factual estabelecido a respeito das profecias sobre o Messias no Antigo Testamento, existe uma lista técnica com 48 profecias que normalmente são citadas como tendo sido cumpridas por Jesus.
O matemático americano Peter W. Stoner (1888–1980), conhecido por aplicar cálculos probabilísticos a temas bíblicos, calculou que a probabilidade de alguém cumprir essas 48 profecias seria de uma em um trilhão elevado à décima quinta potência. A nossa mente não consegue compreender um número desse tamanho.
Algumas dessas profecias
1) Sobre o sofrimento do Messias
Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e que sabe o que é padecer. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados. – Isaías 53:3-5
Cães me cercam; um bando de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés. Posso contar todos os meus ossos; os meus inimigos estão olhando para mim e me encarando. Repartem entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançam sortes. -Salmos 22:16-18
2) Sobre o tipo de morte
Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado. – Salmos 34:20
— E sobre a casa de Davi e sobre os moradores de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas. Olharão para aquele a quem traspassaram. Prantearão por ele como quem pranteia por um filho único e chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito. – Zacarias 12:10
3) Sobre a ressurreição
Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. – Salmos 16:10
Todavia, ao Senhor agradou esmagá-lo, fazendo-o sofrer. Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do trabalho de sua alma e ficará satisfeito. O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. – Isaías 53:10-11
A existência de Jesus é um fato amplamente atestado pela História e, sobretudo, pela Arqueologia. As discussões giram mais em torno de saber se o Jesus histórico era, de fato, o mesmo descrito nas Escrituras Sagradas. Não é o foco deste artigo, mas a veracidade dos evangelhos também é amplamente corroborada por fontes não cristãs da época, como Flávio Josefo (históriador judeu), Tácito (historiador do Império Romano), Plínio, o Jovem (administrador romano e escritor), o próprio Talmude, entre outras.
Jesus realmente morreu na cruz?
Ao longo do tempo, muitas especulações foram feitas — algumas fundamentadas em aparentes contradições entre os relatos dos evangelhos. No entanto, gostaria de trazer à luz descobertas da medicina e da arqueologia que corroboram a compreensão do que ocorreu em Israel há cerca de dois mil anos.
Crucificação
A crucificação não foi inventada pelos romanos. Já era um método de tortura e execução utilizado por outros povos, como persas, cartagineses e gregos. Essa prática foi amplamente empregada em todo o Império Romano como instrumento de punição pública e controle social. A morte por crucificação era reservada, principalmente, a escravos, rebeldes, insurgentes políticos e criminosos considerados perigosos. Era um tipo de morte terrível!
De acordo com os relatos dos evangelhos, Jesus sabia o que iria enfrentar. Após a Última Ceia, dirigiu-se com seus discípulos ao jardim do Getsêmani para orar. Nesse momento, ocorre um episódio que muitos céticos atribuem à imaginação ou ao sensacionalismo dos autores bíblicos.
E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o suor dele se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra. – Lucas 22:44
Hematidrose
A hematidrose é uma condição médica extremamente rara, na qual a pessoa transpira sangue. Isso ocorre quando pequenos vasos capilares se rompem nas proximidades das glândulas sudoríparas, geralmente em resposta a estresse físico ou emocional extremo. Essa é uma das explicações médicas para o que teria ocorrido com Jesus no Getsêmani. Como consequência, a pele torna-se mais sensível.
No dia seguinte, Jesus enfrentaria o açoitamento.
Flagrum
Antes da crucificação, a vítima era submetida a um castigo brutal. O açoite romano, conhecido como flagrum ou flagelo, era um instrumento extremamente violento, projetado para rasgar a carne e causar dor intensa. Eram aplicadas cerca de trinta e nove chicotadas. O chicote era feito de tiras de couro trançadas, com pequenas esferas de metal amarradas. Quando o açoite atingia a carne, essas esferas causavam hematomas profundos, que se rompiam nas chicotadas seguintes. Nas pontas desses chicotes, havia pedaços afiados de ossos que dilaceravam a pele. As costas podiam ficar tão laceradas que, em alguns casos, os ferimentos chegavam a expor a estrutura óssea.
Um historiador do século III, chamado Eusébio, descreveu o açoitamento nesses termos:
“As veias de quem era açoitado ficavam abertas, e músculos, tendões e órgãos internos das vítimas ficavam expostos.”
Algumas pessoas morriam durante essa tortura, antes mesmo de serem crucificadas. As vítimas sofriam dores excruciantes e, em muitos casos, entravam em choque hipovolêmico.
Choque Hipovolêmico
É uma condição médica grave que ocorre quando o corpo perde uma quantidade significativa de sangue ou líquidos, a ponto de o coração não conseguir bombear sangue suficiente para os órgãos vitais. Era o que acontecia com as vítimas de açoitamentos do Império Romano. As consequências imediatas incluem queda de pressão e taquicardia. O funcionamento dos rins ficam comprometidos.
Isso explica porque Jesus precisou de ajuda para levar a cruz:
Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar a cruz de Jesus. – Mateus 27:32
Outro sintoma comum devido ao baixo nível de líquidos no corpo, Jesus sentiu sede:
Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para que se cumprisse a Escritura, disse: — Tenho sede! – João 19:28
Como a cruz matava?
Muito se fala sobre a violência da morte na cruz, mas poucos sabem explicar exatamente como ela levava suas vítimas à morte. Naquela época, não existia medicina avançada nem médicos especializados para constatar o óbito. Para melhor compreender o assunto, vamos abordar uma descoberta arqueológica significativa.
Em 1968, em Jerusalém, foram encontrados restos mortais de cerca de 36 judeus que haviam morrido durante a revolta contra Roma. Uma das vítimas foi Yehohanan ben Hagkol, cujo ossuário forneceu a primeira evidência física da crucificação romana. Um prego de 17 centímetros foi encontrado cravado em seu pé. Isso confirma exatamente o que é narrado no Novo Testamento sobre a crucificação de Jesus.
Jesus provavelmente foi deitado de costas sobre o patíbulo (a parte horizontal da cruz), enquanto a parte vertical ficava fixada permanentemente no chão. Os pregos, com 13 a 17 centímetros, atravessavam seus pulsos, esmagando o nervo central.
Na época, os pulsos eram considerados parte das mãos. Se o prego atravessasse apenas a palma, o peso do corpo a rasgaria, fazendo com que o crucificado caísse da cruz. Em alguns casos, também usavam o apoio de cordas.
Após as mãos serem pregadas na viga transversal, o crucificado era levantado para que os pés também fossem fixados. A dor era semelhante à das mãos, e foi necessário criar uma nova palavra para descrevê-la: excruciante (do latim excruciare, derivado de crux).
As pessoas crucificadas respiravam com esforço físico extremo e doloroso, utilizando os pés cravados para impulsionar o corpo para cima e aliviar a tensão nos braços. A posição suspensa causava asfixia, pois impedia a expansão completa do tórax e dificultava a expiração. Em suma, a morte na cruz era lenta e extremamente dolorosa, ocorrendo principalmente por asfixia.
No livro Em defesa de Cristo, de Lee Strobel, o médico Alexander Metherell explica:
“À medida que a pessoa torna a respiração mais lenta, entra no que é chamado de acidose respiratória: o dióxido de carbono no sangue se dissolve em ácido carbônico, aumentando a acidez do sangue. Isso faz o coração bater de modo irregular. De fato, quando o coração de Jesus começou a bater irregularmente, ele deve ter percebido que a hora da morte se aproximava e disse: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Em seguida, morreu de ataque cardíaco.”
Os soldados romanos eram profissionais da morte e, quando desejavam apressar o falecimento, utilizavam uma haste de aço da lança romana para quebrar as pernas das vítimas. No caso de Jesus, o soldado percebeu que ele já havia morrido, mas, para confirmar, enfiou a lança em seu lado.
Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu isso dá testemunho, e o testemunho dele é verdadeiro. E ele sabe que diz a verdade, para que também vocês creiam. E isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura: “Nenhum dos seus ossos será quebrado.” E outra vez diz a Escritura: “Olharão para aquele a quem traspassaram.” – João 19:34-37
O choque hipovolêmico gerado pelo açoite e pela crucificação é a principal explicação médica para o sangue e a água relatados em João 19:34. A perda intensa de sangue, a desidratação e o estresse físico extremo provocaram o acúmulo de líquidos (derrame pleural e pericárdico) ao redor dos pulmões e do coração antes da morte.
Conclusão
A morte de Jesus na cruz é um fato histórico comprovado e os detalhes bíblicos tem sido cada vez mais comprovados por historiadores, arqueólogos, médicos. As narrativas trazem riquezas de detalhes e confirmam que não havia chance alguma de Jesus ter saído vivo da cruz.
Outro fato ainda mais importante: no terceiro dia ele foi visto por muitas pessoas, caminhando, fazendo refeições com seus discípulos, interagindo de várias formas.