Doutrinas Sobre o Batismo
O debate teológico faz parte do cotidiano evangélico, principalmente nas igrejas tradicionais. Batistas, presbiterianos, anglicanos, luteranos e outras denominações que possuem uma teologia bem definida e consolidada defendem seus pontos de vista com determinação e, até certo ponto, isso é saudável. Entender o porquê das coisas é primordial!
Assuntos como eleição, batismo, ceia, dons do Espírito Santo, entre outros, costumam gerar conversas mais longas e, até mesmo, mais acaloradas entre os fiéis. No entanto, é importante ter sempre em mente que esses temas vêm sendo discutidos desde os primeiros séculos do cristianismo por inúmeros teólogos e que alguns deles não possuem uma explicação tão evidente na Bíblia. Para os defensores mais fanáticos de determinadas posições denominacionais, porém, a Bíblia parece ser muito clara a respeito deste ou daquele assunto.
A verdade é que, na maioria dos temas polêmicos, não existe uma explicação no nível de “dois mais dois são quatro”.
Defender a fé, conhecer a história e entender a doutrina da própria igreja são importantes. Por outro lado, precisamos estar atentos às motivações. Esse é outro ponto muito importante! Maior do que o prazer de vencer um debate deve ser o receio de gerar discórdia, causar escândalo ou até mesmo ferir irmãos na fé ao tentar resolver questões que a própria Bíblia, por algum motivo, não explica de modo direto.
Um dos grandes debates nas igrejas é o batismo. Este é, sem dúvida, um tema que gera conversas acaloradas tanto entre evangélicos e católicos como dentro do círculo de denominações tradicionais e entre tradicionais e pentecostais.
O batismo e suas origens
No contexto judaico do Segundo Templo, já existiam diversos rituais de purificação por meio da imersão em água. A arqueologia encontrou diversos locais na Judeia que possuíam mikva’ot — piscinas destinadas aos banhos rituais de purificação. Diferentemente do batismo cristão, esses rituais podiam ser realizados repetidamente, sempre que houvesse necessidade de purificação.
Na Bíblia, os primeiros registros de um batismo associado ao arrependimento são encontrados nos Evangelhos e estão relacionados a João Batista. Seu batismo tinha como principal motivação o arrependimento e o perdão dos pecados. Diferentemente dos banhos de purificação judaicos, o batismo de João era realizado como um ato único.
Como os banhos de purificação no mikveh já faziam parte da prática religiosa judaica, alguns estudiosos levantam a hipótese de que João tenha utilizado e ressignificado essa tradição para um propósito escatológico, associando a imersão em água à preparação para a chegada do Reino de Deus.
As práticas de João também são frequentemente comparadas às dos essênios, um grupo judaico do período do Segundo Templo que possuía uma forte preocupação com a pureza ritual e mantinha comunidades no deserto da Judeia. No entanto, a relação direta entre João Batista e os essênios não pode ser afirmada com certeza. Embora existam semelhanças entre suas práticas de purificação e a expectativa escatológica, também há diferenças importantes entre o batismo de João e os banhos rituais praticados pelos grupos judaicos da época.
1. O Batismo infantil
Sabemos que o batismo não era uma prática judaica, mas que começou efetivamente com João Batista. Mais do que apenas um ritual, tanto para evangélicos como para católicos, o batismo é considerado um sacramento; no entanto, há uma grande discussão em torno do batismo de crianças.
Para entender o conflito, é interessante revisitar a história. Começo lembrando que o batismo infantil está presente na tradição cristã desde os primeiros séculos e que esse assunto não foi um ponto central de divergência entre os principais reformadores. Por exemplo, para Lutero e Zwinglio, o batismo era um dom do Evangelho, correspondente à circuncisão no Antigo Testamento, e deveria ser recebido pela fé.
Não há uma única passagem na Bíblia que autentique explicitamente o batismo de crianças; no entanto, alguns textos são entendidos como indícios da prática na época apostólica.
Lídia e toda sua casa:
“Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos fez este pedido: — Se julgam que eu sou fiel ao Senhor, venham ficar na minha casa. E nos constrangeu a isso.” – Atos 16:15
O carcereiro e toda a sua casa:
“Naquela mesma hora da noite, cuidando deles, lavou-lhes as feridas dos açoites. Logo a seguir, ele e todos os membros da casa dele foram batizados.” – Atos 16:33
A casa de Estéfanas:
“Batizei também a casa de Estéfanas. Além destes, não me lembro se batizei algum outro.” – 1 Coríntios 1:16
Nenhum dos textos acima menciona diretamente o batismo de crianças pequenas ou de bebês.
Período da patrística
No contexto do período dos Pais da Igreja, que se inicia com o fim do período apostólico e se estende até aproximadamente o século VII, a situação muda consideravelmente. No entanto, nem todos os documentos antigos fazem referência ao batismo infantil. A Didaquê, por exemplo, não menciona o batismo de crianças.
Entre os principais nomes da época patrística, não encontramos uma rejeição sistemática à validade do batismo infantil nem um desenvolvimento doutrinário específico sobre o assunto. Alguns, como Tertuliano e Gregório de Nazianzo, recomendavam que o batismo fosse adiado, permitindo que as crianças crescessem e aprendessem mais sobre Cristo. Outros nomes importantes, como Agostinho, Cipriano e Gregório de Nissa, defendiam a prática. A própria existência de discussões sobre o assunto em suas obras indica que o batismo infantil já era uma prática conhecida e relativamente disseminada em diferentes regiões da Igreja antiga.
2. Imersão ou Aspersão
As discussões em torno do batismo não se restringem à validade ou não do batismo infantil, mas se estendem também com relação ao modo como é feito. As igrejas mais antigas, da época da Reforma, costumam batizar usando o método por aspersão, no qual o pastor derrama água sobre a cabeça da pessoa que está sendo batizada. Entre Batistas e pentecostais o método por imersão é o único aceito: nesse método a pessoa é mergulhada completamente nas águas. Há ainda um terceiro grupo que pratica ambos os métodos.
É válido analisarmos alguns textos do Antigo Testamento.
Embora o batismo, como prática cristã, não fosse um ritual comum no meio judaico, há alguns textos na Tanak — o Antigo Testamento para nós, cristãos — que são normalmente vistos como simbolismos ou referências que podem ser relacionados a essa prática.
O primeiro acontecimento que remete ao batismo por sua semelhança é justamente o dilúvio, relatado no livro de Gênesis.
A família que emergiu da água
A primeira epístola de Pedro faz a seguinte menção a respeito do dilúvio:
“os quais, noutro tempo, foram desobedientes, quando Deus aguardava com paciência nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucas pessoas, apenas oito, foram salvas através da água. O batismo, que corresponde a isso, agora também salva vocês, não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo” – 1Pedro 3:20-21
A história do dilúvio e a salvação da família de Noé são, provavelmente, a prefiguração mais antiga a respeito do batismo cristão. Nesse acontecimento, a família da aliança emerge das águas que simbolizam a morte de um mundo antigo para surgir em uma nova vida. Alguns observarão que a arca não é, em momento algum, mergulhada na água tal qual um submarino, mas as águas são derramadas do céu sobre ela.
Aspersão de água para purificação
Outro texto do AT que chama a atenção sobre o tema batismo está em Ezequiel 36:25:
“Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.” – Ezequiel 36:25
O texto de Ezequiel descreve um ritual de purificação em que a água é aspergida sobre os indivíduos. Tradicionalmente, essa passagem é interpretada como um símbolo da purificação espiritual e da promessa do dom do Espírito Santo. Além disso, muitos estudiosos entendem que ela também apresenta um rico simbolismo que aponta para o batismo no Novo Testamento.